d segurou a correia entre os punhos e
deu-lhe um forte puxão, que o fez Tyrion saltar. O carcereiro
riu.
Ele não vai me empurrar, disse Tyrion desesperadamente a si
mesmo enquanto se afastava da borda engatinhando. Catelyn
Stark me quer vivo, ele não se atreverá a me matar. Limpou o
sangue dos lábios com as costas da mão, sorriu e disse:
- Essa foi forte, Mord - o carcereiro o olhou de soslaio,
desconfiando de estar sendo escarnecido. - Podia dar bom uso
a um homem forte como você - a correia voou, mas desta vez
Tyrion conseguiu esquivar-se. Levou um golpe de raspão no
ombro, nada mais. - Ouro - repetiu, afastando-se sobre os pés
e as mãos como um caranguejo -, mais ouro do que verá aqui
em toda a vida. O suficiente para comprar terras, mulheres,
cavalos... Podia ser um senhor. Lorde Mord - Tyrion reuniu
ruidosamente um globo de sangue e muco e cuspiu-o para o
céu.
- Não há ouro - Mord respondeu.
Ele está ouvindo!, pensou Tyrion.
- Tiraram-me a bolsa quando me capturaram, mas o ouro
ainda é meu. Catelyn Stark pode tomar um homem
prisioneiro, mas nunca se rebaixaria a roubá-lo. Isso não seria
honroso. Ajude-me, e todo o ouro será seu - a correia de Mord
saltou, mas foi um golpe hesitante, isolado, lento e
desdenhoso. Tyrion apanhou o couro e o manteve preso à
mão. - Não haverá risco para você. Tudo o que tem a fazer é
entregar uma mensagem.
O carcereiro libertou a tira de couro da mão de Tyrion.
- Mensagem - repetiu, como se nunca tivesse ouvido a
palavra. A carranca abria-lhe profundas fendas na testa.
- O senhor me ouviu. Basta que leve minhas palavras à sua
senhora. Diga-lhe... - o quê? O que poderia levar Lysa Arryn
a se mostrar flexível? A inspiração chegou de súbito a Tyrion
Lannister. - ... Diga-lhe que desejo confessar meus crimes.
Mord ergueu o braço e Tyrion preparou-se para mais um
golpe, mas o carcereiro hesitou. A suspeita e a cobiça
guerreavam nos seus olhos. Desejava aquele ouro, mas temia
um truque; seu aspecto era de um homem que tinha sido
frequentemente enganado.
- É mentira - resmungou em tom sombrio. - Homem anão me
engana.
- Posso pôr minha promessa por escrito - garantiu Tyrion.
Alguns iletrados sentiam desdém pela escrita; outros
pareciam ter por ela uma reverência supersticiosa, como se
fosse algum tipo de magia. Felizmente, Mord pertencia ao
segundo tipo. O carcereiro abaixou a correia.
- Escrever ouro. Muito ouro.
- Ah, muito ouro - assegurou-lhe Tyrion. - A bolsa é só um
aperitivo, meu amigo. Meu irmão usa uma armadura de folha
de ouro - na verdade, a armadura de Jaime era aço dourado,
mas aquele imbecil nunca saberia a diferença.
Mord passou os dedos pela correia, pensativo, mas por fim
cedeu e foi buscar papel e tinta. Depois da carta escrita, o
carcereiro franziu as sobrancelhas ao vê-la, desconfiado.
- Agora, vá entregar minha mensagem - Tyrion ordenou.
Estava tremendo no sono quando vieram buscá-lo naquela
noite. Mord abriu a porta, mas manteve-se em silêncio. Sor
Vardis Egen acordou Tyrion com a ponta da bota.
- Em pé, Duende. Minha senhora deseja vê-lo.
Tyrion esfregou o sono dos olhos e afivelou um sorriso que
não sentia.
- Sem dúvida que sim, mas o que o faz pensar que eu desejo
vê-la?
Sor Vardis franziu as sobrancelhas. Tyrion lembrava-se bem
dele, dos anos que passara em Porto Real como capitão da
guarda doméstica da Mão. Uma face quadrada e simples,
cabelos grisalhos, constituição pesada e sem sombra de
humor.
- Seus desejos não são da minha conta. Em pé, ou mandarei
que o carreguem.
Tyrion pôs-se desajeitadamente em pé.
- Uma noite fria - disse em tom casual -, e o Alto Salão tem
tantas correntes de ar. Não quero apanhar um resfriado.
Mord, se me fizer um favor, vá buscar o meu manto.
O carcereiro o olhou de soslaio, com uma expressão estúpida e
desconfiada.
- O meu manto - repetiu Tyrion. - A pele de gato-das-sombras
que tirou de mim para guardar em segurança. Você se lembra.
- Vá buscar o maldito manto - disse Sor Vardis.
Mord não se atreveu a resmungar. Lançou a Tyrion um olhar
que prometia uma retribuição futura, mas foi buscar o
manto. Quando o enrolou em torno do pescoço do prisioneiro,
Tyrion sorriu.
- Muito obrigado. Pensarei em você sempre que o usar - atirou
a parte da frente da longa pele por sobre o ombro direito e
sentiu-se quente pela primeira vez em vários dias. - Mostre o
caminho, Sor Vardis.
O Alto Salão dos Arryn brilhava à luz de cinquenta archotes,
que ardiam em suportes presos às paredes. A Senhora Lysa
trajava-se de seda negra, com a lua e o falcão bordados com
pérolas no peito. Como não parecia ser do tipo que se juntaria
à Patrulha da Noite, Tyrion só conseguia imaginar que ela
decidira que roupas fúnebres eram um traje apropriado para
uma confissão. Os longos cabelos ruivos, presos numa trança
elaborada, caíam-lhe sobre o ombro esquerdo. O trono mais
alto ao seu lado estava vazio; sem dúvida que o pequeno
Senhor do Ninho da Águia estava embalado no seu sono. Pelo
menos por isso Tyrion sentia-se grato.
Fez uma profunda reverência e demorou-se u